“Desejo ar, desejo arte”: Professora se reinventa através da escrita e da voz a suas vivências

      Afinal, como se respira por dentro de uma máscara? Como se faz arte em casa?  Esses foram alguns dos questionamentos utilizados pela professora de teatro Andrea Maria Lobo  para escrever o  livro “Desejo ar, desejo arte”. A obra foi contemplada por meio do  edital de arte e patrimônio da Fundação Elias Mansour (FEM).

 A escrita do livro surge a partir de efeitos da dor, de encontros e também de percepções.  Neste período pandêmico a escritora passou a perceber os enclausuramentos que existiam à sua volta, mas principalmente os que existiam nela mesma todo esse contexto a fez refletir sobre a impotência que a cercava diante do que ela podia ou não escrever.

Neste processo de reinvenção e autodescoberta ela começou a investigar o próprio nome e sua ancestralidade. Isso a fez pensar sobre quem seria a “Maria” que existia dentro do nome dela. A escritora revela que está descobrindo as outras “Andreas” que vivem dentro dela, que escrevem e se reconhecem como mulher que sofreu atravessamentos de misoginia na universidade e em outras instituições.

Durante sua vida ela passou por muitas dificuldades para manter-se perto da arte e a única maneira de estar próxima era trilhar o caminho da pesquisa através da docência. E, foi neste espaço constituído majoritariamente por homens brancos que ela teve que aprender a gritar e a colocar seu discurso em pauta. O teatro foi o que a fez continuar e querer se reinventar. A autora sentia que só podia escrever se estivesse rodeada pelos muros da universidade. Essa relação apesar de ser muito benéfica fazia com que ela escrevesse muito academicamente e isso sempre foi entendido por ela como a única escrita possível.

 “Posso não ter esse espaço e legitimação do espaço acadêmico para escrever, mas, eu tenho todo o tempo do mundo. ” Afirma a escritora.

 Apesar das limitações ela se propôs a aumentar sua capacidade de expressão e vasculhar a sua escrita que estava guardada, uma escrita de reação que segundo ela surge a partir do momento em que algo a impacta e atravessa seu interior. Essa escrita ganha ainda mais força a partir da criação de seu canal  no youtube “ leituras no closet” no qual ela se sente livre para dizer às pessoas o que realmente escreve. Essa é sua primeira iniciativa como pesquisadora e escritora independente. O projeto começou em setembro de 2020 e se encerra agora em março de 2021. Na primeira etapa do canal era apenas ela quem se expressava, depois ela passou a convidar mulheres artistas, no total foram dezoito convites feitos.

 O autoconhecimento como mulher negra sucedeu-se tardiamente apenas  aos quarenta e quatro anos, a partir disso ela relembra os processos de racismo aos quais passou.  A autora aborda sobre o assunto no capítulo “Das cores que me habitam”. Lá ela relata sobre as violências as quais vivenciou, em especial ela ressalta uma ocorrida em Botafogo,  zona sul do Rio de Janeiro. Tudo aconteceu  quando ela tinha apenas 20 anos e  trabalhava  como balconista dos correios. Era seu primeiro emprego. Certo dia um  senhor  tentou “furar” a fila e ela o corrigiu pedindo para que ele ficasse em seu devido lugar. É então que neste momento ele grita  “ só podia ser mulatinha mesmo.” Isso a assustou e ao mesmo tempo a fez acordar.

Seu objetivo com o livro é poder atravessar outras pessoas utilizando da escrita. Para ela além de ser um processo de empoderamento é um processo de “ cair a catarata, de enxergar”,  isso tem muito a ver com o que ainda não é enxergado.

Esse desejo ao qual ela fala no título da obra trata-se dos recursos que nos movem mesmo através de paredes, são eles que nos permitem respirar e produzir. Uma das referências para o nome do livro foi a morte prematura da escritora Fernanda Young no ano de 2019. Ela começou a pensar que através disso Young teria previsto o que estava por vir, referindo-se a atual situação de pandemia da covid-19. “É como se ela tivesse dito: “Olha o que vai vir”, frisa Andrea.

Para a escritora a arte é “ar” e a capacidade de poder se expressar é curativa. O edital de incentivo à cultura foi fundamental para dar visibilidade às coisas que ela escreve, além da possibilidade de publicação. Segundo ela, se não fosse o edital não haveria possibilidade de multiplicar esse desejo por “ar” para outras pessoas e que provavelmente teria engavetado o projeto para publicar quando tivesse condições melhores. O livro tem previsão para ser lançado em abril e será publicado em duas vias, impresso e em e-book.

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