Gastronomia junina do Acre relembra tempos de arraial

O ano era 2019. Uma fogueira de papel celofane faz sons crepitantes no meio do terreno. Crianças correm, jogando estalinhos no chão e sorrindo abertamente. Nas mesas, famílias e amigos se reúnem, comendo milho cozido na espiga, pirarucu a casaca, um pedaço macio de bolo de macaxeira, comidas conhecidas intimamente pelo acreano que celebra a festa junina.

“Cultura nada mais é que os valores de um povo. A culinária é o ato mais primordial da nossa cultura.”, conta a gastróloga e professora de Gastronomia, Alice Marques.

Para o mineiro, o pão de queijo douradinho com um copo de café bem preto. Para o gaúcho, o chimarrão quente na cuia. Cada estado dos mais de 8,5 mil km² do território brasileiro reflete a cultura de seu povo. “Nossos comportamentos de alimentação são determinados pelo aspecto geográfico, pelas crenças religiosas e pelas origens”, informa Alice.

Arraial Fora de Época, 2016. Foto: Angela Peres/Secom

E não podia ser diferente durante uma das maiores manifestações culturais do Brasil: as festas juninas. Em texto escrito ao site Brasil Escola, Daniel Neves conta que a chegada dessa comemoração ao país data do século XVI, trazida pelos portugueses. Era chamada de festa joanina em homenagem a São João, mas foi alterada remetendo ao mês em que é comemorada. Neves também relembra algumas comidas típicas da celebração, como a canjica, o milho cozido e a pamonha.

Aqui no Acre consumimos vatapá, carne de sol e outras referências nordestinas, graças ao período da extração da borracha – é o que diz a professora. “Muitos cearenses migraram para ocupar essa região. Meu próprio bisavô foi soldado da borracha, nascido em Manaus e filho de cearense”.

Dentre os pratos típicos do arraial do Acre temos carne de sol quentinha, o pirarucu à casaca regado no azeite com uva passa, o quibe de arroz e de macaxeira. É comum ver as famílias se deliciando com nossa culinária.

“O Acre, por ser um grande produtor de castanha, também produz muitos doces à base dessa oleaginosa maravilhosa. Estão presentes também nas festas juninas: bombons, tortas de travessa e bolos com doce de cupuaçu, fruto tropical abundante da região, castanha e macaxeira.”, relembra Alice.

O ano é 2021. Não tem mesa na rua, nem fogueira crepitando, nem crianças com roupas de flanela correndo e gritando, brincando de estalinho. Foram dois anos sem festa junina, sem dançar quadrilha. A folia faz muita falta, mas podemos comemorar o arraial na segurança de nossas casas ao nos deliciarmos com as comidas típicas do Aquiri.

Alice Marques é formada em Gastronomia pela Universidade do Vale do Itajaí. Foto: Cedida.

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